O despertar de uma necessidade: os eventos que abriram caminho para a padronização do EEG
- Mildred Paneca
- 17 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Quando a Inovação se Encontrou com a Complexidade
Nas décadas de 1940 e 1950, a eletroencefalografia experimentou um crescimento explosivo que alguns historiadores descrevem como "a propagação com a velocidade e vigor de um incêndio na pradaria". No entanto, este rápido crescimento trouxe consigo um problema inesperado: cada laboratório desenvolvia seus próprios métodos, terminologia e critérios de interpretação, criando um panorama fragmentado que ameaçava a credibilidade científica da disciplina.
A Fundação que Mudou Tudo
Um momento decisivo chegou em 1949 com a criação da Federação Internacional de Neurofisiologia Clínica (IFCN, por suas siglas em inglês) em Paris. Esta organização, que celebrou seu 70º aniversário em 2019, surgiu de uma reunião científica histórica realizada no Hospital Nacional de Doenças Nervosas em Queen Square, Londres, em 1947, com aproximadamente 100 participantes de 17 países.
Os pais fundadores da IFCN - Henri Gastaut, Herbert H. Jasper, Edgar D. Adrian, Robert S. Schwab, W. Grey Walter e Fritz Buchthal - não apenas estabeleceram uma organização, mas lançaram as bases para o que se tornaria um movimento global em direção à padronização. Sua visão era clara: "promover as melhores práticas em neurofisiologia clínica através da educação e pesquisa em todo o mundo".
Os Sintomas de uma Crise em Desenvolvimento
Para a década de 1950, os problemas da falta de padronização haviam se tornado evidentes. Os neurofisiologistas enfrentavam desafios que ecoariam décadas depois:
Babel Terminológica: O mesmo fenômeno eletroencefalográfico recebia nomes diferentes em centros distintos, enquanto o mesmo termo descrevia achados completamente diferentes. Como observou Grey Walter em 1949: "Se vamos nos entender uns aos outros, nossa linguagem deve conter termos e símbolos acordados, sinais e escalas convencionais".
Anarquia Metodológica: Os técnicos e engenheiros de diferentes laboratórios construíam seus próprios eletroencefalógrafos com eletrodos, canais e amplificadores divergentes. Esta variabilidade tecnológica tornava a comparação de resultados entre centros praticamente impossível.
Critérios de Normalidade Fragmentados: Múltiplos sistemas de classificação contraditórios coexistiam para definir o que constituía um EEG "normal". Como descreveu Hill em 1952: "o que é anormal para alguns, continua sendo normal para outros".
As Consequências do Caos
Esta falta de uniformidade não era meramente um problema académico. Tinha consequências clínicas reais e potencialmente perigosas. O caso mais dramático foi a administração de medicamentos anticonvulsivos a pacientes com transtornos psicopáticos devido a uma má interpretação do termo "disritmia". Este evento ilustrou vividamente como a confusão terminológica podia traduzir-se em decisões terapêuticas errôneas.
Os estudos da época revelavam que aproximadamente 15% das pessoas normais tinham EEGs "anormais", o que questionava fundamentalmente a confiabilidade do EEG como indicador de disfunção cerebral. Este paradoxo fazia eco do problema de variabilidade interpretativa que ainda enfrentamos hoje: diferentes especialistas chegando a conclusões diferentes sobre o mesmo registro.
Os Pioneiros da Solução
Reconhecendo a magnitude do problema, a comunidade científica lançou iniciativas extensas para padronizar a pesquisa em EEG. Os comitês surgiram para unificar aspectos fundamentais:
Colocação de Eletrodos: Herbert H. Jasper desenvolveu o sistema de colocação 10-20, assegurando que todas as áreas do cérebro fossem cobertas de maneira uniforme. Este sistema, que cobre as regiões frontal, parietal, temporal e occipital, tornou-se o padrão internacional.
Terminologia Unificada: Estabeleceram-se glossários para homogeneizar os juízos sobre anormalidade, um processo que continuaria evoluindo durante décadas.
Análise Automatizada: Introduziram-se procedimentos de análise de dados automatizados para reduzir a subjetividade na interpretação.
O Momento de Maturação
Para as décadas de 1950 e 1960, o EEG havia alcançado seu apogeu como ferramenta diagnóstica padrão em neurologia. Havia se tornado instrumento essencial para diagnosticar epilepsia, distúrbios do sono, encefalite e tumores cerebrais. No entanto, este sucesso também intensificou a necessidade de padrões mais rigorosos.
A IFCN começou a publicar as primeiras diretrizes técnicas para a gravação digital de EEG clínico, estabelecendo os fundamentos para o que eventualmente se tornaria os sistemas de relatório padronizado como SCORE.
As Sementes do Futuro
Os eventos destas décadas críticas estabeleceram um precedente fundamental: a inovação tecnológica deve ir acompanhada de padronização metodológica. Os pioneiros da neurofisiologia clínica compreenderam que sem uma linguagem comum e métodos uniformes, até os avanços mais brilhantes poderiam perder-se na confusão.
Este período semeu as sementes para os desenvolvimentos que veremos em décadas posteriores: a criação de sistemas de relatório computadorizados, a implementação de bases de dados multicêntricas e, finalmente, o surgimento de plataformas como SCORE que transformariam a prática clínica.
Em nosso próximo artigo, exploraremos como estes fundamentos históricos culminaram nos primeiros tentativas sistemáticas de criar padrões internacionais para a interpretação do EEG.
Sua instituição reconhece a importância histórica destes desenvolvimentos? A padronização moderna tem suas raízes nas lutas e visões destes pioneiros.
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