Do papel aos chips de silício - Padronização do EEG na era digital (1990-2010)
- Mildred Paneca
- 14 de set. de 2025
- 5 min de leitura
A Transição Digital: Quando o Papel se Tornou Obsoleto
A última década do século XX e os primeiros anos do novo milênio marcaram uma virada histórica na neurofisiologia clínica. Embora as décadas de 1970 e 1980 tenham introduzido a digitalização do EEG, foi durante as décadas de 1990 e 2010 que essa tecnologia amadureceu completamente, transformando não apenas a forma como a atividade cerebral é registrada, mas também a forma como ela é interpretada, relatada e compartilhada pelo conhecimento médico.
Os Pioneiros da Padronização Digital
Os Primeiros Sistemas de Relatórios Computadorizados
Ao contrário do que muitos acreditam, as primeiras tentativas de padronização computadorizada dos relatórios de EEG começaram surpreendentemente cedo. Já na década de 1980, Robert R. Young e Keith H. Chiappa, do Hospital Geral de Massachusetts, desenvolveram um pacote de software próprio para relatar achados de EEG, no qual termos fixos podiam ser selecionados e os relatórios gerados de forma semiautomática.
Mas foram Harald Aurlien e seus colegas que deram o passo mais significativo. A partir de 1998, eles começaram a usar um pacote de software chamado "Holberg" para relatar achados de EEG e gerar bancos de dados automaticamente. Esse sistema permitiu a geração de relatórios de mais de 36.000 exames de EEG até 2013, lançando as bases para o que viria a se tornar o sistema SCORE.
O Legado da Johns Hopkins
Paralelamente, na Johns Hopkins, Ronald Lesser e seus colegas desenvolveram um pacote de software chamado "Reporter", a partir de 1998, que padronizou termos em descrições de EEG, permitindo buscas por palavras-chave. Até 2013, eles já haviam preparado mais de 38.000 relatórios usando esse software.
A Revolução dos Padrões da IFCN
Os Padrões Digitais de 1998
Um momento crucial ocorreu com a publicação dos "Padrões da IFCN para registro digital de EEG clínico" em 1998. Esses padrões, desenvolvidos pela Federação Internacional de Neurofisiologia Clínica, estabeleceram pela primeira vez as especificações técnicas mínimas para o registro digital de EEG clínico, abordando aspectos-chave como:
• Padrões para eletroencefalografia digital
• Controle de forma e registro
• Processamento de sinais auxiliado por computador
• Terminologia padronizada
A Era da Alta Densidade
A década de 1990 viu o desenvolvimento de sistemas de EEG de alta densidade (HD-EEG) que proporcionavam resolução espacial muito mais precisa. Essas melhorias tecnológicas não apenas aumentaram a precisão do diagnóstico, mas também criaram uma necessidade urgente de novos protocolos de padronização para lidar com a complexidade adicional dos dados. O Problema da Torre de Babel Digital
A Crise da Interpretação
No início dos anos 2000, um problema inesperado surgiu: a fragmentação da terminologia. Embora a digitalização tenha resolvido muitos problemas técnicos, ela criou um novo e fundamental. Como observaram os pesquisadores, "Na prática, floresce uma ampla variedade de terminologias locais, onde o mesmo termo é usado com significados diferentes em diferentes centros, e a mesma característica é descrita com termos diferentes em diferentes centros".
Essa Babel terminológica contribuiu potencialmente para a baixa concordância interobservador descrita anteriormente para o EEG. No entanto, quando os eletroencefalógrafos tiveram que avaliar características específicas do EEG escolhendo entre uma lista de termos predefinidos, a concordância interobservador foi significativamente maior.
A Necessidade de Ferramentas Computadorizadas
Especialistas perceberam que ferramentas computadorizadas eram necessárias para:
1. Melhorar a qualidade da avaliação e interpretação de EEG
2. Aumentar a concordância entre avaliadores na divulgação dos achados
3. Construir grandes bancos de dados para pesquisa clínica
4. Constituir uma ferramenta valiosa para a educação
Os Primeiros Passos em Direção ao SCORE
Os Workshops de Consenso (2010-2011)
O ponto de virada veio com os workshops de consenso realizados em Dianalund, Dinamarca, em 2010 e 2011. Um grupo de trabalho de especialistas em EEG participou desses workshops, com o corpo docente aprovado pelo Comitê de Assuntos Europeus da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE).
O grupo de trabalho SCORE, composto por 25 neurofisiologistas clínicos/epileptologistas de 15 países europeus, desenvolveu uma proposta de consenso com o objetivo de refletir as necessidades e práticas em diferentes países e centros.
Desenvolvimento de Software (2010-2013)
Com base no consenso, o software SCORE foi desenvolvido por um grupo de programadores da Holberg EEG AS. O processo foi iterativo, levando três anos de desenvolvimento, com versões sucessivas testadas por meio da pontuação de registros de EEG na prática clínica. No total, mais de 2.000 registros foram incluídos neste processo, com quatro revisões importantes realizadas.
A Primeira Versão do SCORE (2013)
O ConsensoEuropeu
Em 2013, a primeira versão do SCORE foi publicada como um consenso europeu, endossado pelo Capítulo Europeu da IFCN e pela Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) - Comitê de Assuntos Europeus. Este modelo ajudou a desenvolver uma terminologia e critérios unificados para o estado de mal epiléptico não convulsivo.
Elementos Principais do Sistema
O SCORE incorporou os seguintes elementos principais:
• Dados pessoais do paciente
• Dados de indicação
• Condições de registro
• Moduladores/procedimentos
• Atividade de fundo
• Sonolência e sono
• Achados interictais
• "Episódios" (eventos clínicos ou subclínicos)
• Padrões fisiológicos
• Padrões de significância incerta
• Artefatos
• Canais poligráficos
• Significância diagnóstica
Grandes Bancos de Dados: O Poder da Padronização
Centro Dinamarquês de Epilepsia
Uma versão modificada do software Holberg foi usada para gerar todos os laudos padrão de EEG no Centro Dinamarquês de Epilepsia desde 2009. O banco de dados gerado automaticamente durante o laudo possibilitou abordar questões específicas relacionadas a determinados aspectos do EEG, resultando em três publicações adicionais.
Expansão Internacional
Em 2013, quando a primeira versão do SCORE foi publicada, seu valor prático já havia sido demonstrado. Mais de 36.000 exames de EEG foram relatados usando o software Holberg, e o sistema Reporter da Johns Hopkins gerou mais de 38.000 laudos. O Impacto na Prática Clínica
Melhoria da Qualidade Diagnóstica
A padronização digital de 1990 a 2010 trouxe melhorias significativas:
1. Redução da subjetividade: Sistemas padronizados forçaram os médicos a usar terminologia precisa e consistente.
2. Melhor rastreabilidade: Bancos de dados digitais permitiram acompanhamentos longitudinais de pacientes.
3. Facilitou a pesquisa: Dados padronizados possibilitaram estudos multicêntricos em larga escala.
4. Melhoria da educação: Os sistemas forneceram ferramentas de treinamento consistentes.
Desafios Persistentes
Apesar dos avanços, desafios significativos permaneceram:
• Variabilidade tecnológica: Diferentes laboratórios utilizavam equipamentos com especificações divergentes.
• Falta de adoção generalizada: Os sistemas permaneceram principalmente em uso local.
• Diversas necessidades culturais: Diferentes tradições médicas exigem abordagens adaptativas.
O Legado do Período 1990-2010
Preparando-se para a Era Global
O trabalho realizado durante essas duas décadas lançou as bases fundamentais para o que viria a ser o sistema SCORE internacional. Pioneiros como Harald Aurlien, Ronald Lesser e as equipes do Hospital Geral de Massachusetts criaram não apenas ferramentas técnicas, mas também uma cultura de padronização em neurofisiologia clínica.
A Transformação Cultural
Talvez a mudança mais importante não tenha sido tecnológica, mas cultural. A comunidade neurofisiológica começou a reconhecer que a padronização não limitava a expertise médica, mas sim a aprimorava, permitindo comparações mais precisas, pesquisas mais robustas e melhor atendimento ao paciente.
Conclusão: Os Fundamentos da Medicina Moderna
O período de 1990 a 2010 representa um capítulo crucial na história da medicina. Durante essas duas décadas, a neurofisiologia clínica deixou de ser uma disciplina dependente de papel e interpretação subjetiva para se tornar uma ciência baseada em dados digitais padronizados.
Essa história nos lembra que os avanços médicos mais transformadores nem sempre são os mais visíveis. Enquanto o público comemora novos medicamentos ou técnicas cirúrgicas, muitas vezes são as melhorias na padronização, documentação e sistemas de informação que realmente revolucionam a prática médica e melhoram os resultados dos pacientes globalmente.
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